Crypto Valley: a meca dos bitcoins e das criptomoedas

Quando em julho de 2016 a prefeitura de Zug anunciou que passaria a aceitar Bitcoin como meio de pagamento para serviços administrativos do governo, essa pequena cidade situada a meia hora de Zurique ganhou fama internacional. Poucos meses depois, em novembro de 2016, as máquinas de bilhete de trem da companhia nacional do transporte ferroviário (CFF) também começaram a vender bitcoins.

Por décadas, o Cantão de Zug foi conhecido por sua política de impostos baixos, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas. Foi assim que atraiu grandes multinacionais como a Glencore, a maior empresa mundial de commodity trading, com USD 170 bilhões de faturamento anual em 2015. Nos últimos três anos, graças à visão de desenvolvimento de negócios do cantão, conseguiu reunir cerca de 25 empresas de tecnologias de criptomoedas e blockchain na região. Entre elas, grandes nomes como Ethereum, a fundação que fornece a tecnologia de ether, o maior concorrente da Bitcoin, e o mercado de câmbio ShapeShift. A última grande novidade veio recentemente quando a Xapo, prestadora de serviços de bitcoins, anunciou em um post em seu blog ter conseguido a autorização da FINMA (a autoridade reguladora do mercado financeiro suíço) para atuar na Suíça e que pretende mudar sua sede para Zug.

(Veja aqui um panorama dos atores)

Mas, afinal, o que faz de Zug a meca das novas tecnologias financeiras?

Inicialmente fruto da estratégia do Cantão de Zug de se tornar o “Crypto Valley” – um hub mundial para empresas de blockchain e principalmente de criptomoedas, a visão estendeu-se pela Greater Zurich Area, a parceria pública privada criada para a promoção da região econômica em volta de Zurique da qual Zug faz parte. Graças a esses esforços, Zurique já conseguiu trazer empresas como o Google e o Uber para a região.

Além do sistema político e da cultura de privacidade financeira, a Suíça é atraente por causa de sua alta capacidade de inovação. Pelo quinto ano seguido, o país foi premiado como o mais inovador do mundo pelo Global Innovation Index 2016, publicação da Organização Mundial de Propriedade Intelectual e Universidade de Cornell. As excelentes universidades, como a Universidade de Zurique e a Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH Zurich), recentemente premiada a universidade mais internacionalizada do mundo, fornecem um grande pool de talentos do mundo inteiro e geram inúmeras spin-offs.

Reza a lenda que o termo “Crypto Valley” foi cunhado em uma reunião entre a divisão de promoção econômica do cantão de Zug, representantes da Ethereum e Johann Gevers, o fundador e CEO da Monetas, empresa que fornece um software capaz de verificar contratos e termos de negociação, chamado de smart-contracting, que se tornou rapidamente embaixador e promotor da ideia do Crypto Valley. Em 2013, Gevers percebeu que o sistema financeiro era caracterizado por uma concentração muito grande de atores, não só do ponto de vista geográfico, mas também de quota de mercado dos grandes players do mercado financeiro. Essa concentração não combinava bem com o caráter descentralizado da Monetas. Em 2014, Gevers decidiu mudar a sede da Monetas para a Suíça, país famoso pelo sistema político descentralizado. Um aspecto fundamental de novas tecnologias como a de blockchain e criptomoedas é a descentralização. Gevers falou à revista suíça Cash: “Não existe um monopólio de poder, mas o poder é dividido entre muitos atores, que se monitoram reciprocamente. A Suíça tem uma tradição secular de descentralização. As pessoas entendem as vantagens da descentralização, como, por exemplo, que ela protege de abuso de poder”, explica Gevers.  Outro fator para a atratividade da Suíça, e do Cantão de Zug em particular, mencionados por Gevers são o apoio dos governos cantonais para empreendedores se instalarem na região.

O governo federal suíço, por meio do Conselho Federal, anunciou em recente comunicado à imprensa a revisão das regulações sobre o mercado financeiro que se aplicam para as empresas de fintech com o objetivo de diminuir as barreiras para entrada das empresas de fintech no mercado, criar segurança jurídica e aumentar a competitividade do centro financeiro suíço. Reconheceu também que, “devido à rápida digitalização no setor financeiro, principalmente na área de blockchain, pressupõe-se que surgirão modelos de negócios ainda hoje não concebidos” e que estará “acompanhando esse desenvolvimento de perto para poder rapidamente propor mudanças regulatórias onde for necessário”.

(Leia aqui o Comunicado de Imprensa, em inglês)

O ecossistema do Crypto Valley em Zug conta com vários atores, entre eles o Zug Bitcoin Meetup e outros grupos de interesse como a Bitcoin Association of Switzerland e a Digital Finance Compliance Association, que promovem o diálogo entre os atores, defendem os interesses do setor e colaboram com os legisladores e a FINMA para criar um quadro jurídico para essas novas tecnologias. O Instituto de Serviços Financeiros Zug (IFZ), parte da Universidade de Ciências Aplicadas de Luzern, representa o mundo acadêmico em pesquisas na área de legislação financeira.

Crypto Valley beneficia-se da sua proximidade com Zurique, capital financeira da Suíça e sede de vários atores financeiros tradicionais. Em Zurique ficam duas importantes aceleradoras para start-ups na área de fintech. A primeira, a F10, é a incubadora e aceleradora de SIX, a maior bolsa de valores suíça, que iniciou o primeiro programa de aceleração em novembro de 2017. A segunda, Kickstart, tem fintech como uma das cinco verticais para seu programa de aceleração. A Kickstart tem um nível de internacionalização alto, com 80% das start-ups aceleradas vindas de fora da Suíça e conseguiu, pela primeira vez, juntar dois grandes concorrentes, Credit Suisse e UBS, como investidores, fato que demonstra o interesse desses atores tradicionais nas inovações do mercado de fintech.

As evoluções recentes, tanto do lado regulatório quanto do lado dos atores financeiros tradicionais suíços mostram o potencial para fintech e principalmente a área de criptomoedas e blockchain na Suíça, mais especificamente na região de Zug. O rápido crescimento do número de empresas e a notícia animadora de Xapo mostram que a região se mantém competitiva, mesmo concorrendo com os grandes centros, como Singapura e Londres. Pode-se esperar que o processo de concentração acelere-se ainda mais durante esse ano, pois como concluiu Johann Gevers: “Toda empresa precisa de um cluster.”

Fontes:

http://www.coindesk.com/blockchain-innovation-switzerland-crypto-valley-new-york/

http://www.businessinsider.com/r-low-tax-zug-aims-to-become-switzerlands-crypto-valley-2016-9

http://fintechnews.ch/blockchain_bitcoin/crypto-valley-zug-7-companies-you-might-not-have-heard-about/3131/

https://www.youtube.com/watch?v=pdwrM8ubSZg

https://monetas.net/media/blog/2016/11/01/building-crypto-valley-founder-and-ceo-johann-gevers-at-sibos/

http://www.s-ge.com/global/invest/de/blog/xapo-erhaelt-gruenes-licht-von-der-finma