Fotos: Pedro Freitas

Entrevista: Escolhares no Brazil

Crianças com problemas de visão enfrentam dificuldades de aprendizagem. Com frequência, nem suas famílias nem o ambiente escolar estão preparados para identificar a necessidade de tratamento, o que atrasa ainda mais o diagnóstico e prejudica o desenvolvimento. Para enfrentar este problema, a ONG Escolhares, criada na Suíça, desenvolve ações em escolas públicas do Rio de Janeiro com voluntários suíços e brasileiros. A swissnex Brazil recebeu em agosto de 2019 uma residência acadêmica com estudantes de Medicina e Enfermagem da Universidade de Lausanne (Unil). O grupo realizou exames e entregou óculos a crianças em escolas no subúrbio carioca.

Katia Steinfeld é suíço-brasileira e diretora do projeto Escolhares. Estudante de Medicina no 5º ano da Unil, foi criada no Rio de Janeiro, onde começou seus estudos, antes de se mudar para Lausanne em 2016. Com o apoio da Clinton Global Initiative University e do Departamento de Relações Internacionais da Unil, ela criou e dirige o projeto Escolhares. Katia conta um pouco mais sobre a iniciativa nesta entrevista.

O que é o projeto Escolhares?
Escolhares tem por objetivo rastrear problemas de visão em crianças que não têm acesso à oftalmologia. Para isso, vamos a escolas públicas do Rio e, com estudantes de medicina e médicos oftalmologistas, oferecemos consultas completas dentro das escolas. Em seguida, doamos os óculos prescritos e acompanhamos as crianças que necessitam de tratamento mais complexo. Retornamos às mesmas escolas a cada 2 anos.

Estudantes suíços voluntários do projeto Escolhares. No centro, Katia Steinfeld, presidente da ONG.

Como surgiu a ideia de desenvolver este projeto?
Começou em 2015 entre estudantes de medicina cariocas, como um pequeno projeto de pesquisa para a disciplina de iniciação científica. Ao realizar um rastreio básico em uma escola com 200 crianças, constatamos que 10% dessas tinham problemas de visão não corrigidos. Impressionados pelo resultado, buscamos então formas de solucionar o problema, trazendo médicos, óculos e informação às escolas. Em 2016, me mudei para a Suíça para continuar meus estudos e, graças ao apoio da Universidade de Lausanne e do concurso Clinton Global Initiative University, criei a ONG suíço-brasileira.

Estudante atendida pelo projeto Escolhares

Qual é o impacto social?
Desde 2017, 2.500 crianças de 4 a 12 anos passaram por nosso rastreio oftalmológico. Dessas, 600 apresentaram baixa visão e foram examinadas por oftalmologistas em suas escolas. Foram 250 pares de óculos doados e 15 crianças com patologias mais complexas obtiveram tratamento em clínicas parceiras. Além disso, realizamos um trabalho de prevenção primária, informando professores e pais sobre importância de cuidar da visão das crianças. Finalmente, oferecemos a oportunidade a mais de 400 estudantes de medicina suíços e brasileiros de trabalharem juntos como voluntários nas escolas.

Como é o envolvimento dos voluntários e que experiências eles vivenciam?
O projeto existe à base de voluntários. Em sua maioria, são estudantes de medicina e oftalmologistas da Suíça e do Brasil. Também contamos com voluntários de outras áreas em ambos os países, incluindo membros das comunidades escolares pelas quais passamos. Alguns se envolvem pontualmente, outros preferem ajudar de forma contínua. Na Suíça, são cerca de 50 afiliados e 10 diretores que cuidam de toda a área financeira e administrativa, assim como do desenvolvimento tecnológico e científico. No Brasil, 5 voluntários coordenam o projeto, recrutando médicos e estudantes, organizando seminários de treinamento e fazendo contato com as escolas. Antes de cada mutirão, formamos cerca de 70 estudantes de medicina a fazerem rastreios oftalmológicos para crianças em aulas teórico-práticas. Os voluntários treinados então vão à escola e testam todos os alunos do ensino médio, identificando aqueles com problemas de vista. Em seguida, montamos consultórios nas escolas e trazemos oftalmologistas para examinar todas as crianças selecionadas. Nesta etapa, os estudantes atuam como auxiliares dos médicos, cuidando da montagem dos consultórios, da sala de espera, do registro dos dados, etc. Por fim, para a entrega dos óculos, nossos voluntários organizam um evento na escola, com jogos educativos sobre visão, e convidamos os pais das crianças contempladas. Uma vez por ano, cerca de 10 estudantes suíços viajam ao Rio de Janeiro e durante 20 dias trabalham com os voluntários brasileiros nas escolas. Proporcionamos assim uma oportunidade a todos interessados em servir e de ver de forma concreta o resultado de seu trabalho, doando óculos e trazendo visão às crianças. Juntos, aprendemos a comunicar e a colaborar com pessoas de perfis, idades e contextos completamente distintos. Acreditamos que assim também contribuímos para a formação de médicos que entendam o conceito de saúde, e todos seus determinantes, de forma mais abrangente.

Quais são os planos para o futuro?
Nosso objetivo é ir além da ação social e transformar a Escolhares em um laboratório de inovação social. Queremos gerar dados relevantes sobre a problemática da visão das crianças e restituí-los tanto à comunidade científica quanto aos principais interessados: as comunidades escolares. Assim, juntos, poderemos elaborar soluções ainda mais eficientes e participativas, construídas sob medida com e para o nosso público. Estamos dando agora um primeiro passo nessa direção. Gostaríamos de entender melhor o impacto do projeto nas comunidades escolares pelas quais passamos. Como evolui o estado de saúde oftalmológico das crianças nas escolas em que retornamos a cada dois anos? O que pais, professores e alunos aprendem sobre saúde visual por meio dos nossos mutirões? Para as crianças a quem ajudamos a enxergar melhor, como isso afeta seu desenvolvimento, tanto em termos de desempenho escolar quanto de inclusão social? A fim de colocarmos de pé esse projeto de pesquisa estamos colaborando com instituições suíças e brasileiras com expertise nessas diferentes áreas. A coleta de dados terá início em 2020, com o rastreio de 3.000 estudantes em 5 escolas públicas do Rio.

Como foi a residência na swissnex Brazil?
A Swissnex Brasil nos proporcionou excelentes condições de trabalho; seja fisicamente, no espaço em que nos alocou, quanto no que diz respeito ao apoio institucional e às conexões que nos permitiu construir. Fomos muito bem recebidos e certamente a estadia abriu portas para o crescimento do projeto. Obrigada!