Projeto Andar de Novo: os novos passos

São Paulo, 28 de março de 2017

O neuro-engenheiro Solaiman Shokur, pesquisador sênior do Projeto Andar de Novo, foi nosso convidado do talks@swissnex. Para uma plateia lotada, Shokur apresentou a combinação de tecnologias e tratamentos pioneiros que têm o potencial de revolucionar a medicina da paraplegia.

O segredo está em duas técnicas desenvolvidas pelo projeto. A primeira usa interfaces cérebro-máquina, baseadas no controle de avatares virtuais e pernas robóticas pelo cérebro de pacientes paraplégicos. A outra é chamada de substituição sensorial – tecnologia que permite substituir o sinal sensorial das áreas paralisadas por estímulos externos vindos de outras partes do corpo. No caso dos pacientes do projeto, sensores atrelados aos braços dão o retorno sensorial ao cérebro quando aqueles encostam o pé paralisado no chão.

Unidas no formato de um treinamento, essas duas técnicas levaram a melhorias motoras e sensoriais não esperadas para os sete acientes voluntários que participam da pesquisa. “A combinação dessas técnicas vem promovendo a retomada de pequenas funções motoras e sensoriais nos membros inferiores dos voluntários, permitindo avanços no controle de suas bexigas, intestinos e funções sexuais”, explica Shokur. Esse resultado, garante o pesquisador, traz benefícios à qualidade de vida dos pacientes.

Os pesquisadores agora querem saber que mecanismos estão por trás desse sucesso. A hipótese defendida hoje por Shokur e seus colegas é de que a lesão medular não corta todas as fibras da coluna vertebral. Porém, devido à lesão, o cérebro “esquece” das fibras restantes. É aqui que o método de reabilitação criado pelos pesquisadores entra em cena: ele ajuda o cérebro dos pacientes a relembrar funções motoras e sensoriais e, com isso, recomeçar a usar as fibras não afetadas pela doença.

O projeto Andar de Novo teve como objetivo inicial o desenvolvimento de m exoesqueleto como tecnologia de assistência para paraplégicos. Foi com esse exoesqueleto que o projeto ganhou o mundo, quando um paciente deu o chute inaugural do jogo Brasil e Alemanha durante a Copa da Mundo de 2014.  No laboratório, que funciona na Vila Madalena, em São Paulo, trabalha uma equipe multidisciplinar de uma médica, psiquiatras, fisioterapeutas, enfermeiras e engenheiros. O coordenador do projeto é do médico e cientista brasileiro Miguel Nicolelis.

“O que sabemos com certeza é que o projeto Andar de Novo desenvolveu um tipo de terapia de reabilitação que conseguiu, pela primeira vez, promover uma recuperação neurológica parcial de pacientes com paraplegia completa”, comemora Shokur.

A paraplegia é consequência de uma lesão medular traumática, que corta ou perturba a comunicação entre o cérebro e os membros inferiores, causando a perda parcial ou completa de funções motores e sensoriais, como a sensação tátil e térmica. Não existe nenhuma terapia de reabilitação hoje para pacientes com paraplegia completa.

Recente relatório da Organização Mundial de Saúde revela que, por ano, 200 mil novos casos de acidentes de lesão medular ocorrem no mundo, de quais aproximadamente 3500 no Brasil. São em grande parte homens (82%) com idade média de 34 anos, que sofrem acidentes rodoviários, quedas ou acidentes com armas de fogo.

Shokur, nascido no Afeganistão, é formado pela Politécnica de Lausanne (EPFL) na Suíça, uma das mais importantes universidades do país. Durante o doutorado na EPFL, ele desenvolveu uma interface cérebro-máquina baseada em realidade virtual para testes com macacos. Seu trabalho de pesquisa com o projeto Andar de Novo ficou entre o 1% da produção cientifica mais citada no mundo.